Vamos dar um tempo…

É ideia de “Vamos dar um tempo” virou clichê nos filmes românticos, e também na vida real; argumento descortês (para dizer o mínimo) de quem não consegue assumir que o relacionamento com a outra pessoa chegou ao fim, então propõe esse “tempo” entre os dois. Entretanto, quero falar de um outro tempo que precisamos dar, especialmente a nós mesmos. Pode ser um tempo para pensar, sentir, ou até mesmo para viver tudo o que deixamos para depois, pela falta de tempo.

Discutir a ideia de se dar um tempo hoje, em pleno mês de setembro, tem um significado especial, seja pela campanha do Setembro Amarelo, que promove a prenvenção ao suicídio, ou pela proximidade do fim do inverno, e a promessa de uma nova primavera, um novo ciclo de vida para nossas vidas. Além disso, hoje o tempo vem se tornando um recurso cada vez mais raro.

Nas palavras do poeta, Lulu Santos, “hoje o tempo voa, amor, escorre pelas mãos, e mesmo sem se sentir, não há tempo que volte, amor, vamos viver tudo o que há para viver, vamos nos permitir…”

Experimente se permitir!

Sim, o tempo parece voar, cada dia mais e mais rápido, mas para se “viver tudo o que há para viver” é preciso se permitir, e gozar o tempo no seu tempo. A letra da música sempre me pareceu um convite para curtir a vida como quem caminha, a fim de dar tempo ao tempo, em oposição à ansiedade de quem corre contra o tempo. Vamos dar um tempo…

No atual cenário, em que cada dia mais pessoas parecem se tornar reféns do producionismo, séries inteiras são assistidas num único dia, e passamos horas vendo manchetes de notícias e publicações curtas no Twitter, ou posts do Instagram; mas dizemos não ter tempo para mergulhar num filme mais longo, ou mesmo num livro mais complexo.

Pode até ser uma característica desta nossa nova forma de pensar, influenciada pelas tecnologias atuais, como nos apresenta Nicholas Carr em seu livro “Geração Superficial – O que a internet está fazendo com nossos cérebros”; mas bem lá no fundo a gente se impõe uma espécie de pressa, uma urgência em concluir, terminar logo mais uma tarefa, sem nos permitir um minuto para pensar, refletir antes de responder ou agir. Algo que vale a pena começar a experimentar.

A ideia do 1 Minuto. Vamos dar um tempo…

Já me acostumei a ouvir relatos de situações de grande ansiedade envolvendo debates improdutivos, ou perguntas “sem pé nem cabeça”. Quando me pedem algum conselho sobre como lidar e “acabar o mais rápido possível” com estes embates irritantes proponho à pessoa que ela experimente pedir 1 Minuto para pensar antes de responder.

É engraçado perceber que, diante do conselho oferecido, é comum a pessoa partir logo para o debate comigo, tentando refutar a possibilidade desta ideia funcionar; e é neste exato momento que eu lanço o desafio dela se dar um minuto antes de argumentar, ou me responder. Aqueles 60 segundos parecem durar uma eternidade, porém os resultados são incríveis.

Os pensamentos não param durante aqueles segundos que se arrastam, na divertida experimentação de se dar um simples minuto para pensar, e isso é bom! A mente fervilhante está trabalhando, com certeza; ainda assim o faz num minuto dedicado a si mesma, à própria reflexão, à construção de um argumento que faça mais sentido.

A proposta do 1 Minuto é um bom exercício para começar a se dar um tempo; e ainda permite elucidar ideias, tranquilizar os ânimos, e dar tempo também para seu interlocutor pensar na pergunta que fez ou argumento que apresentou. E o mais importante, é que as duas pessoas estarão experimentando gozar do tempo juntas, sem a pressa de que tudo acabe logo.

Dolce Far Niente…

Falar em “fazer nada”, em plena pandemia e isolamento físico, quando tudo o que mais se quer é poder fazer alguma coisa, até parece contraditório; entretanto, diante da maneira como tentamos nos entreter, ocupando ao máximo cada hora dos nossos dias, inclusive aqueles “livres”, talvez seja mesmo o momento de resgatar esta filosofia do far niente.

O que para alguns é apenas uma expressão da língua e cultura italiana, eu chamo de filosofia de vida! Ela designa a dedicação ao fazer nada; porém, vai muito além da simples ausência de ação. O far niente é uma iniciativa consciente de aproveitar parte do tempo para você, sem atividades que lhe “ocupem”, apenas dar um tempo para viver o momento, seja consigo mesmo ou com outras pessoa; mas a essência envolve parar para ser, diferente do fazer para ter.

Merecemos dar um tempo a tudo que nos rouba o tempo, pelo simples prazer de ter tempo para viver cada segundo como único! Experimente!

Vamos dar um tempo... rafael giuliano

Rafael Giuliano
Minimalista e livre pensador; um curioso por natureza e pela natureza humana!

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